Urupë
2017
9 Impressões a jacto de tinta em Papel Fine Art
109 x 73 cm
9 Impressões a jacto de tinta em Papel Fine Art
109 x 73 cm
A complexidade visual desta série não se limita apenas ao jogo caleidoscópico entre o suposto referente - a flora residente em algum jardim botânico - e as texturas que dão corpo a um manto diáfano ou fantasmático, uma espécie de véu reticulado através do qual se encobre todo o plano visual. A esta membrana translúcida é adicionada ainda uma outra estrutura arquitectónica, composta por esquadrias (de janelas), a qual se dissimula numa matriz que parece servir de enquadramento ao universo vegetal de uma natureza inacessível.
O que vemos nestas imagens é essencialmente uma composição por camadas de elementos visuais, uma estratigrafia composta por velaturas, reflexos e linhas perpendiculares em interação permanente. Em algumas das fotografias é mais intensamente notória a tensão vibrátil que delas emerge, produzindo-se nestes casos uma modulação da percepção visual que classificaríamos de alucinatória. Neste contexto, a autora propõe-nos uma aproximação velada à Phýsis ("Natureza"), como se a capacidade de apreender a vida que brota incessantemente fosse inacessível à percepção humana.
Num certo sentido, o conjunto de fotografias que compõem Urupë remete para uma qualidade metafísica do conhecimento, ou seja, para o transcurso que visa o acesso cognitivo à essência originária do devir. Os velamentos e os reflexos comuns às imagens que integram a série, formam de facto uma pertinente metáfora, alusiva à construção filosófica da verdade, em Platão. Para o pensador grego, a “verdade” ou a “realidade” (Alétheia), consistiria num processo de desencobrimento das imagens - ou das aparências - que revestem a natureza das coisas em si.
Urupë ou o (des)velamento da imagem
Rui Ibañez Matoso
(Investigador na área da imagem e da visualidade pós-media)
Apoio: DGPC



