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Traffic

2015
Vídeo HD | Cor | Som | 5’19

Prosseguindo uma pesquisa visual em torno de um referente comum a outros trabalhos, este ensaio audiovisual acentua a afinidade existente entre natureza e labor. A ancestral tensão entre o orgânico e o artificial vemo-la agora habitar poeticamente no plano fixo da imagem, onde coabitam a coreografia das aves, a métrica racional dos construtores e o marulhar das águas em fora de campo.

Nesta paisagem industrial monocromática as andorinhas edificam ninhos a uma altura exacta de 73,5 metros, mas ao contrário do que sucede noutros lugares do globo, parece estar longe ainda a subida das águas no paredão da barragem.

Entre a (des)ordem hierárquica da humanidade e o caos espontâneo da natureza pressente-se, em Traffic, a fragilidade intrínseca à vida no seu confronto diário com a perturbação oriunda de outros tráficos globalmente poderosos. Neste sentido, o enquadramento do plano, enquanto síntese visual, funciona como uma excelente metáfora daquilo que Nietzsche identificou em A Origem da Tragédia, como a dicotomia fundadora da tragédia e da cultura greco-cristã, a dialética entre o Apolíneo e o Dionisíaco. Assim, podemos compreender melhor a já longa história do combate entre o vitalismo poético, associado a Dionísio, e o racionalismo positivista de Apolo. Um confronto metafísico entre a liberdade criadora do espírito humano e a coerção infinita exercida pelas sociedades de controle.

Tal como as andorinhas são mensageiras da chegada da primavera, o deus Dionísio celebra a renovação da intensidade plena da vida. Uma vida em constante construção, nidificando ao abrigo dos recantos apolíneos, entre o cimento e os telhados do mundo.

Texto: Rui Matoso